TESTAMENTO DO THOR Olá Dono, se estás a ler estas palavras, é porque já não estou neste mundo para te fazer companhia e brincar contigo. Quero te dizer que adorei todos os momentos que passamos juntos. Ao escrever estas palavras imagino o focinho que fazias sempre que chegavas a casa e me chamavas para me fazeres festas e brincares muito comigo. Quase todos os dias, sentia o cheiro de outros cães, cães com que estiveste antes de vir ter comigo. Mas não me importava, sabia que era só trabalho, sabia que ao fim do dia voltavas para mim, sabia que por mais cansado que tu viesses, havia sempre tempo e alegria para estar comigo. Gostava que todos os cães tivessem um dono como tu, que os acarinhasse e entendesse. Infelizmente, sabia que nem todos os cães com quem ladrava durante a noite, eram tão bem tratados como eu, alguns até tinham sido abandonados pelos seus donos. Tanta vez te ouvi gritar com os humanos para tratarem bem as suas mascotes. Enfim, eles encolhiam as orelhas e metiam o rabo entre as pernas e voltavam a ganir para casa, para dias mais tarde cometerem os mesmos erros. Quero que entendas que todas as vezes que te roí os sapatos, que destruí os tapetes da tua casota, que fiz as necessidades (porque estava à rasquinha) dentro da tua casota, que escavei no jardim e estraguei aquelas coisas que cheiravam bem, fiz tudo isto porque me sentia sozinho. Desculpa Dono, desculpa por tudo isto, sei que quando chegavas a casa e vias aquele cenário dantesco, tinhas vontade de ladrar bem alto comigo, mas tu melhor que ninguém sabias que não ia adiantar nada. Em vez disso, chamavas-me e apertavas-me contra o teu corpo, como se tivesses medo de me perder. Por vezes, durante o dia, vinhas a casa ver como eu estava e depois ia-mos passear e tu mandavas-me fazer aquelas coisas esquisitas como sentar, deitar, ficar quieto, enfim esquisitices, mas eu fazia tudo, fazia tudo como tu me tinhas ensinado porque sempre que fazia aquilo tu fazias-me muitas festinhas, davas-me uma guloseima, fazia tudo aquilo porque adorava ver o teu sorriso, a tua voz suave e o brilho no teu olhar. O teu olhar dizia tudo, quando estavas contente, quando estavas zangado. Quando estavas triste e ganias baixinho e eu me aproximava de ti devagarinho e lambia o teu focinho, nunca soube o que eram aquelas gotas salgadas que escorriam dos teus olhos. Quero que fiques com todos os brinquedos que me destes, com todos os buracos que escavei, com todos os vasos que destruí. Quero que fiques com toda a força que sempre me demonstrastes. Quero que fiques com todo o carinho, atenção e amor que todos os dias me deste. Quero que guardes a minha cama que ficava no alto da tua casota e de onde eu conseguia vigiar todo o meu território, que guardes essa cama, essa cama onde tu dormiste tantas noites ao meu lado quando eu era pequenito e estava doente, quero que guardes as lembranças de quando eu doente dormia no teu colo e tu passavas noites inteiras a cuidar de mim, a abraçar-me, a aquecer-me, a proteger-me. Queria tanto continuar neste mundo para te proteger dos outros cães e dos outros humanos, como tanta vez o fiz no passado. Não consigo resistir mais, estou aqui deitado neste chão frio. Tenho tanto frio. Onde estás tu Dono??... Vem para casa, preciso de ti, sei que quando saístes de casa eu estava bem mas. Vem para casa Dono, preciso de ti. Sei que quando chegares a casa e chamares por mim e eu não aparecer, vais ficar aflito, vais procurar por mim e quando me encontrares, vais pensar que estou a dormir. Vais-te aproximar e vais sentir que algo não está bem e por fim descobrir que já cá não estou. Sei que vais gritar como nunca gritastes, sei que vais chorar como nunca chorastes. Sei que vais apertar o meu corpo sem vida contra ti. Sei que vais imaginar que alguém me fez mal e jurar aos Deuses que vais encontrar e fazer pagar com a vida por me terem feito mal. Mas não foi ninguém, foi o meu coração que não aguentou. Apesar de ter só dez meses. Sei que quando me enterrares, vais fazer a coisa que mais te custou fazer até então na tua vida. Parece que te estou a ver. Lá estão a escorrer aquelas gotas no teu focinho. Queria tanto lamber o teu focinho uma última vez. Adeus Dono.Vou deitar a cabeça e esperar mais um pouco. Sinto cada vez mais frio. Vem para casa Dono, preciso de ti, apenas queria te ladrar uma última vez e dizer-te adeus, para seres feliz e que te Adoro. (recebido por Fernando Rodrigues) |