| Artigo da Semana 26 de Agosto de 2005  Por Sandra Cardoso
No passado dia 13 de Agosto de 2005, a equipa da SosAnimal visitou o Refugio Aboim em Ascensão, com o intuito de entregar os objectos que recolhemos ao longo de um mês, roupas, brinquedos, fraldas, livros, sapatinhos, etc. Saímos de Lisboa, com a certeza que esta viagem seria, com certeza, uma viagem valida com um objectivo nobre… e com aquele gostinho de uma certa vitoria! Afinal tínhamos 5 carros atolados para as crianças!!! Saímos de Lisboa, alegres, com um atraso de 2 horas... Não vou aqui dizer nomes, mas foi culpa da Cristina Campos e do Pedro Cortez… A viagem foi uma brincadeira pegada, ao fim de umas 2 horas, lá apareceu o Victor que veio do Porto, tipo Pai natal e fomos em caravana rumo ao objectivo! Nunca carreguei tanto com tanta boa vontade… todos acartaram, todos sorriam, e alguns até cantaram… As instalações eram agradáveis, tudo arranjadinho, cor-de-rosa, com desenhos nas janelas, com fotos nas paredes. Fomos recebidos e iniciamos a visita ás instalações, e ás crianças! Quando entramos no pátio principal, avistamos umas piscinas pequeninas cheias de crianças com idades entre os 2 e os 4 anos… estavam felizes, a brincar na água, cheios de sorrisos! Correram para a rede e esticaram aquelas mãozinhas para nós! Senti um baque no peito… como podem receber tão pouco da vida e ter uns sorrisos tão grandes, para alguém que nunca tinham visto… tão divertidos, tão contentes, tão meiguinhos… todos tão lindos… E assim através da rede, o Tomás deu-me a primeira festinha… Seguimos a visita ainda a olhar para trás, com vontade de parar tudo e ficar ali, na piscina de plástico a deitar baldes de água para fora, a inundar a relva de água, de brincadeiras, de sonhos… Enquanto conhecia as instalações, via pelas paredes fotos das crianças, alguma delas percebia que eram já antigas, e pensava onde estarão estas crianças, para onde foram, o que fizeram, onde estão e o que são hoje! Subimos as escadas e fomos dar ao parque dos bebes… dezenas de bebes, apoiados por senhoras de tentam dar colo, atenção, carinho… mas eram tantos, cada um tinha 3, 4, 5… todos queriam colinho… todos eram bebes, com meses… uns nas cadeirinhas, outros nos tapetes, deitadinhos, a olhar para cima, a gatinhar, a chorar, a pedir colinho… e eu ali, parada… a pensar, meu deus… onde estão os pais destas crianças… onde está o colinho de cada um, onde estão os beijinhos da, mamã e do papá… Peguei numa menina ainda com 4/5 mesinhos, que me olhava fixamente, a pedir colinho… ao agarrar nela, dos meus olhos escorrem lágrimas, de compaixão, de impotência de tristeza! Como pode ser este mundo assim, como podem estar crianças sem os pais, na altura que toda a atenção é pouca… Enquanto pegava num, outros arrastavam o corpinho para perto de nós, na tentativa de ter um colinho só para eles, carinhos individuais… Não conseguia parar… parar de chorar, enquanto Victor limpava as lágrimas do meu rosto, mais corriam, enquanto olhava para aqueles olhinhos pequeninos, puros, desprotegidos… Tenho gravado em mim, o choro, o queixume, o cheirinho a bebe… os olhos, cheios de esperança… de ter uns pais, um colo, uma família… Para nos arrancarem do piso, foi complicado, o choro e a impotência instalou-se no grupo, e uma espécie de desespero colectivo apoderou-se de nos… Num outro quarto estava um bebe de 2 semanas, zangado a chorar… de mãos cerradas e sobrancelhas franzidas… zangado com o mundo, porque ele era pequenino e estava sozinho, enquanto a Auxiliar de Educação, preparava o leitinho, enquanto dava banho aos outros bebes, enquanto metia a chucha aos que choravam, enquanto pegava neste e naquele, que precisam de colo, da chucha, de trocar a fralda, de um beijinho… E eu, tão impotente a olhar, e pensar… que egoísta que eu sou, que fútil é a minha vida… Tenho 26 anos, e o meu pai chora por não me ver… tenho 26 anos, e ainda tenho um colo sempre a ansiar a minha chegada, sempre á procura dos meus beijinhos, sempre a sentir o meu cheirinho! Tenho 26 anos, e os meus pais gladiam-se pelos minutos que estão comigo, pela minha atenção, pela minha presença… E ele que só tinha 2 semanas, estava sozinho, a ter de repartir a Senhora, que corre para acudir a todos, que o embala enquanto dá o leitinho…. Que diz “já vou bebe”! Descemos para o piso inferior, onde estavam as crianças da piscina, já numa de banhos, três dentro da mesma banheira, numa espécie de lavagem em série, todos contentes, a rir e a brincar!!! Uns com espuma na cabeça, a brincarem, numa balbúrdia de brincadeiras e água… Ficamos sentados no chão e nos sofás pequeninos, numa espécie de sala de televisão… Eram tantos, cada um tinha uns seis, e os braços eram curtos para abraçar tantos! Saltavam de mim, para o Pedro, para a Cândida, tiravam os óculos da Cristina, mexiam na mala da Lígia, puxavam a mão do Luís, subiam pela Susana, arrastavam o Nuno, puxavam o cabelo do Victor… No meu colo, ficou sempre o Tomas, que me abraçava e dava beijinhos, talvez para acalmar o meu choro, talvez porque gostou de mim, porque tinha saudades de um colinho só par ele, porque ponha o dedinho no meu pólo e repetia “CAPALO”, cavalo, gostava de cavalos, gostava de mim, gostava dos meus beijinhos e dos meus apertos… Esticava os bracinhos, enrolava no meu pescoço e apertava, numa espécie de pacto… As horas passaram e nem dei conta dos minutos. Estava perdida no meio daqueles bracinhos tão pequeninos, naqueles olhos castanhos, naquele cabelinho espetado, naqueles beijinhos doces… todos procuravam o contacto físico… o tal carinho… Todos eram especiais… todos deviam ter uma família… e se pudesse trazia todos! Mas não posso, então, penso só em um, e tento arranjar forças para organizar as coisas e sonhar em ser a mãe dele, do Tomás, que se for meu filho, vai ser o João Maria Cardoso… Até hoje a tal vontade de ser mãe, nunca foi muito acesa, porque sou mais uma menina mimada e egoísta, porque tenho medo do pai que posso arranjar, uma vez que já vi tanta gente usar as crianças para guerras pessoais, uma vez que já vi pessoas que dizem amar perdidamente, magoar e prejudicar deliberadamente… tudo isto trás medo, insegurança… Mas depois de te conhecer, penso em ti todos os dias, vejo-te na praia a brincar com a areia, com uns calções turquesa… vejo-te na Charneca a correr atrás da Maggy e do Tristão, pendurado no pescoço do Cardoso… sinto-te deitado na minha barriga, enquanto baloiço na rede branca… quase que sinto o teu cheirinho… Alguns raios de sol furam a sombra das arvores e revelam que tens riscas laranja no cabelo, como eu… és meu então…somos um do outros… para sempre, enquanto dura a sesta na rede, até acordar e perceber, que ainda estou a baloiçar sozinha na rede, e tu estás no meio de guerras, de advogados, de legislação mal feita e de um pais em entropia geral que nada faz e nada quer fazer! Onde as crianças são esquecidas, onde os que não tem voz são deixados no esquecimento e no meio da poeira… há cerca de 27.000 crianças que poderiam ser adoptadas, e apenas 3000 casais com autorização para iniciar a adopção… Quantas crianças vão a tempo de serem adoptadas, até deixarem, de ser crianças, umas deixam, de ser crianças tão cedo… outras são devolvidas a quem lhes faz mal, outras são devolvidas á vida cruel, que as torna adultos cruéis, marginais… gente sem sonhos e sem brilho! O meu país tem mais burocracia do que vontade de fazer bem, tem mais entraves do que soluções, tens mais tachos que gente activa, tem mais funcionários do que trabalhadores! No meu país, todos fazem o favor de desempenhar as tarefas pelas quais são pagos… No meu país as senhoras viram a cara para não verem os animais esborrachados nas estradas, mas depois vão ao El Corte Inglês comprar casacos de peles! No meu país fecham a janela para o menino que pede nas ruas, não incomodar… no meu pais, quem faz voluntariado é maluco ou desocupado! No meu país quem tem mérito e vontade, é apontado como inoportuno! No meu pais não existe lugar á esperança, porque ninguém acredita na mudança…Foi aqui que nasci, foi aqui que aprendi a amar o Tejo, foi aqui que jurei lutar contra o que está errado, é aqui que tenho os que amo… mas é aqui que tomo consciência que tenho de ir embora para puder fazer alguma coisa… Quem sabe assim, até te tenho comigo mais cedo… Sandra Duarte Cardoso sandra.cardoso@sosanimal.com |