Artigo da Semana
24 Março de 2006


Por Sandra Cardoso

Observo os animais encantada… como olham, como entendem o mundo, como se relacionam, uns mal outros bem… alguns dizem semelhantes aos humanos, quanto a mim, estão um patamar à frente…

Na nossa casa temos dois cães residentes, são os nossos filhos, Não me lembro de existir sem que eles estejam por perto, são uma parte de mim.
Com eles aprendi que por vezes não é preciso dizer nada, ficar quietinho enquanto quem gostas chora, ou está doente, dar a lambidela no momento certo, chega!
Todos os dias quando chego a casa tenho a maior das recepções, adoram pular e correr, mas quando vão para um sítio com espaço, ao fim de algum tempo já estão perto de nós, ao nosso colo ou deitadinhos em cima dos pés, como tanto adoram fazer!
São dois personagens aqueles meus cães, cheios de personalidades, mas com uma doçura no olhar difícil de passar despercebido!

Gostam em geral de tudo e de todos, e cada vez que chego a casa com mais um desgraçado abandonado na rua, doente, seja grande ou pequeno, é bem recebido, partilham tudo, cama, comida, os donos, tudo! Esta tudo na maior e depressa se nota o poder do carinho deles em reabilitar o novo hospede!

JackieArtigoSemanaTNA nossa última missão, chama-se Jackie, é uma linda cachorrinha com 4 meses.
Em dia de campanha enquanto os voluntarios Pedro Cortez e Pedro Bartolomeu retiravam alguns animais para participarem na campanha, chegou um senhor bem posto, para entregar esta pequena cadelinha ao canil, alegou estar doente e tal! Claro que eles não aguentaram e não permitiram, trouxeram, a bichana…

Chegaram os dois de cabeça baixa, a dizer que ela tinha ataques estranhos e estava gravemente doente… olhavam um para o outro, e estava tudo meio perdido…
Vi a menina, linda de morrer, percebi que estava mesmo gravemente doente, ficou de lado, não poderíamos dar para adopção um animal assim, tinha ataques de dores, gania, não andava, não tinha força, enfim… um quadro clínico bem complicado!
No fim da campanha após a bichana foi levada ao veterinário, pensamos em esgana nervosa já avançada… tristes olhávamos uns para os outros com a possibilidade de abate em mente…

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Afinal não era preciso, havia outra possibilidade, maus tratos repetidos e graves…
Foi para a nossa casa, juntos víamos apavorados o terror do animal, o seu estado de magreza, as suas dores… aos poucos fomos conseguindo chegar perto, até que um dia, enquanto trocávamos carinhos os dois com ela no meio, ela reagiu e quis participar dos carinhos, pediu beijinhos, e chegou a sua boquinha à nossa, estarrecidos de felicidade partilhamos com ela todo o nosso amor e sentimos que estava no caminho da recuperação, e assim foi, dia para dia, ficou melhor, tomou todas as picas, comprimidos, começou a comer muito, a tentar brincar a tentar andar, e hoje esta uma sirigaita de primeira! Sempre com o seu pai adoptivo e a mãe galinha atrás, e claro nós os dois que ficamos com o coração repleto de esperança! Afinal o amor cura mesmo, contagia os que estão à volta e resolve o que a ciência não consegue…

Por vezes fico cheia de coisas más, chatices do trabalho, gente burra, gente má que passa a vida a chatear e a inventar mais coisas para promover o mal!
Gente que adopta animais e depois os descarta como lixo, já foram abandonados e ainda tem de ser sujeitos a mais este número! Outros acham que somos deus, e estamos em todo o lado! Outros ainda acham que não temos mais nada para fazer do que os aturar com as suas frustrações e maluqueiras! E ainda aquelas que tem a lata de descartar o seu trabalho para cima de nós! Enfim o mundo… mas mal vejo a estátua do Marques de Pombal, começo a ter a sensação que já sinto o cheiro deles, que já estão à porta à minha espera… tiro os sapatos, beijo o meu amor, e esta completo o meu paraíso…
 

Sandra Duarte Cardoso

sandra.cardoso@sosanimal.com